quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

SEBO LITERÁRIO PÁGINA 7/PORTAL CEN


SEBO LITERÁRIO
 

Isabel Cristina Silva Vargas


 
 
 
CONTOS
Pág. 7 de 7 Pág.
 
Ritual

Levanto-me, arrumo a roupa, como alguma coisa e saio, não sem antes pegar meus objetos indispensáveis para a peregrinação diária- a bíblia, o terço. e o meu crucifixo.
Gosto de ler as passagens, os salmos , de cantar os hinos de louvor a Deus .Gosto daqueles mais tradicionais, mais solenes . Hoje têm algumas em ritmo mais moderno que eu acho até desrespeitoso com Deus, Jesus, Maria e os santos em geral.
Modéstia à parte, tenho boa voz, canto bem e alto. .Tanto que às vezes pego as pessoas me olhando um tanto desconfiadas - isto quando dá o acaso de cruzar o olhar, porque não fico me exibindo, nem olhando para os outros. Devem achar que sou louco. Mal sabem que eu também já pensei isso. Mas foi em outros tempos. Sou assim, meio bicho do mato, de pouca conversa e poucos olhares. Vivo dentro da linha que tracei para minha vida. Pelo menos acho que fui eu.
Cumpro um ritual diário.
Vou à missa todos os dias.
Antes fico ali horas a fio. Passeio na volta, olhando cada detalhe da parte de fora, até porque tem hora para abrir. O interior conheço cada detalhe. É como se fosse minha casa. Acompanhei as poucas mudanças que ocorreram. Vou ali desde pequeno, antes de sair a correr mundo à procura de explicações para coisas inexplicáveis ou para fugir dos caras que me procuravam.
Quando voltei e ainda não podia me expor muito, era onde eu ficava.
Chego cedo, fico sentado no banco embaixo da árvore, bem de frente para a porta. Leio, peço perdão, rezo. O terço todinho. Enquanto isso vai me subindo um sentimento que não sei explicar e me lembro de onde e como eu poderia estar e tenho vontade de beijar os pés de Jesus por me permitir andar por tudo . É quando eu me ajoelho e beijo o chão e fico de braços abertos agradecendo por esse mundão todo à minha disposição.
Em outras ocasiões fico de pé todo o tempo, afinal sacrifício, penitência e jejum limpam as impurezas da alma. Fico ali desafiando os postes para ver quem permanece mais tempo durinho, estaqueado só olhando para cima com aquele olhar de Jesus Cristo, só olhando pro pai, menos na hora algoz, claro, quando ele não agüentava mais e baixou os olhos de tão desanimado. Sei bem como é isso.
Agora não baixo mais os olhos. Ando sempre empertigado. O olhar sempre num ponto fixo. Sempre olhando para frente, reto, sem virar para trás nem para os lados. Só para cima e para dentro de mim.
Talvez por saber tanto do Dele e tudo que ele deve ter sentido que ao me olhar no espelho até me acho parecido com ele. Quando não tinham me cortado o cabelo e a barba então, era mais ainda. Quase igual.
Aí depois de todo esse ritual diário sento na porta da igreja, coloco a caixinha do meu lado e a fico até a hora de assistir a missa e encerrar meu dia, até recomeçar tudo de novo.
Isabel Vargas
 
Sentimento amordaçado

Tenho que manter muita coerência entre o que penso, digo e realizo. Será que tenho mesmo? As contradições não fazem parte da nossa humanidade?
Não posso me deixar levar por desespero nem cultivar a desesperança. É preciso manter o equilíbrio e saber aceitar momentos de dificuldades como invitáveis. Não posso ter a pretensão de acreditar que este momento não chegaria. Ele chega para todos nós. Tinha muito medo de enfrentá-lo. Não sabia como reagiria que sentimento apareceria. Quando foi com meu pai ainda era jovem. Foi diferente. As emoções se misturavam. Era um misto de dor e insegurança, mas o futuro se descortinava na minha frente. Acreditei que o tempo me faria entender muitas coisas.
Agora, apesar da enfermidade que já se instalara e da qual eu procurei me manter afastada - pela minha incapacidade de lidar com ela - por antever a morte, percebo que fugi a vida inteira da única certeza da vida. Como outrora os sentimentos continuam misturando-se em minha cabeça(ou no coração?) Por que só penso? Por que racionalizar tudo? Devia me deixar sentir, esgotar os sentimentos até a última gota. De que? Se nem choro...
Sei que devia chorar. Por que não consigo?
Sei que a dor é grande. Ou devia ser?
Sinto que me arrancaram as raízes.
Pairo solta no espaço.
Isabel Vargas
 

Sexta-feira da Paixão

Ano: 1987. Mês: Abril. Planos: Ir à Procissão na Sexta-Feira Santa rezar, agradecer pela vida e saúde das meninas e pedir proteção para ter um bom parto já que a data se aproximava.
Ao amanhecer, trabalho de parto iniciado, lá fui eu para o hospital.
Antes das 9 horas daquela Sexta-feira da Paixão, já estava com meu menino nos braços. Parto rápido, feliz, muito feliz, como foram os 23 anos que se seguiram.
Amado por toda a família, amigos, colegas, alunos, todos que com ele conviviam.
Ano: 2010. Nas primeiras horas de uma sexta-feira de maio, Jesus que tinha me emprestado um anjo de doces olhos azuis por inesquecíveis 23 anos o tomou de volta tragicamente.
Meu calvário teve início.  
Isabel Vargas
 
Sorte selada  “O Tempo me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da vida”
Lya Luft

Era uma tarde de sol muito quente. Dava uma lerdeza danada no corpo. Só o que andava rápido e solto era o pensamento. Tudo mais parecia se arrastar.Avida... Os dias todos muito iguais, repetidos, arrepiantes de tão chatos. Novidade... Até esquecera o que era uma novidade.
Já nem sabia por onde andava aquela menina moleca que sonhava com uma vida muito diferente daquela. Queria aprender música, tocar em locais distantes dali, brilhar nos saraus, casar com aquele seu professor de piano e com ele ganhar esse mundão de Deus. Aliás, nem sabia se ela existira realmente. Ou se tendo existido já estava morta.
Não tivera escolha, a pobre. Quando percebera o pai já tinha decidido. Fora escolhida para casar com o primo. Coisas de conveniências, manterem patrimônio, essas idéias práticas, lógica de homem pela qual ela nem se interessava muito.
Sua sorte fora selada tal qual dos bois da fazenda. Uns para corte, outros para a lida. Todos marcados, no couro e no destino. Sentia-se igualzinha a eles. Todo dia fazia a mesma coisa.
E os sonhos?Já nem lembrava se os tivera mesmo. Se eram seus.
Olhava-se no espelho e não se reconhecia. Era o fantasma de si mesmo. Esse fantasma que a aterrorizava e mostrava que a morte dos sonhos era a morte da alma.
Então... morta ela se sentia...
Sentia-se igual a tudo em sua volta. Propriedade alheia. Sem passado, sem presente, sem alma, sem futuro.
Foi, então, que o alarde das crianças lhe tirou do torpor em que se encontrava.
Não é que algo estava acontecendo lá fora?
E o que se passou diante de seus olhos gelou o sangue em suas veias, embora o calor reinante lá fora.
Não é que Cabiúna, o boi que ganhara o mundo tinha voltado?
Como pudera ter voltado depois de sentir o gosto da liberdade?De viver sem patrão? De pastar em outras pradarias? De estar livre da canga e do relho?
Será que não sabia mais viver por sua própria conta?Será que precisava que lhe dessem um sentido para sua existência?Será que só tinha vida a serviço do seu dono?
Não tinha vida fora disso?
E o pior estava acontecendo ali. Estavam tirando-lhe o que restava de vida.
Podia o homem ser o Senhor da Vida e da Morte?
Sentiu as lágrimas escorrerem em sua face.
Sentia-se tal qual o boi velho.
Onde estava o sentido de tudo? Na vida? Na morte? Nos dois? Em nenhum dos dois?
Percebeu que o sentido de tudo talvez estivesse nela mesmo. Em reencontrar a vida dentro dela.
Foi preciso um choque para lhe mostrar que tudo dependia dela. No que podia fazer daqui para frente.
Reencontrou o que julgara perdido para sempre.
A esperança...
Não ia esperar para tirarem-lhe o couro também.
Isabel Vargas
 
Vírgulas
 
"A vida é um grande e complexo texto que precisa de muitas vírgulas para ser escrito, ainda que essas vírgulas assumam em alguns momentos o formato de lágrimas.”
Augusto Cury

Manhã de muito calor. Paradouro de estrada. Meus familiares entram para lanchar. Escolho uma mesa na área externa e acomodo-me à sombra. Providencio água e comida para meu cachorro que viaja conosco. Chega uma moto com duas pessoas, quase simultaneamente. Ao tirarem os respectivos capacetes e se acomodarem à mesa em frente à que me encontro constato que se trata de um homem jovem e uma senhora idosa. Ela permanece ali. Sorri para mim e ele entra no estabelecimento. Retorna com refrigerante gelado para ambos. Trocam algumas palavras, viram-se para mim, como à espera que eu participe da conversa. Faço algum comentário sobre o calor. É o sinal para que a conversa se estabeleça.
O rapaz conta-me que se dirigem par uma localidade próxima, no interior do município, percorrendo uma estrada de terra. Mostra-se otimista com as notícias de jornal que informam ter sido disponibilizada verba pelo governo para asfaltar aquela região. Está na última semana de férias e como não gosta de ficar parado está indo prestar ajuda aos cunhados na colheita do fumo. A sua mulher que não pode tirar férias do trabalho na mesma época permanecera em casa com o filho de 14 anos.
A senhora, pequenina, franzina, de cabelos brancos bem curtinhos, sogra do rapaz, conta-me que também pretende ajudar os filhos em suas tarefas. Fala-me de suas manias, seus gostos e preferências, entre elas a de que deseja permanecer morando sozinha enquanto sua saúde assim o permitir. A cada coisa que fala enfatiza que o genro é sua testemunha.
Até então, falávamos de amenidades, como em uma ante-sala de conhecimento. Quando ela começou a discorrer sobre coisas mais profundas é que fiquei a pensar na sua força interior, na sua tenacidade, gosto pela vida, na enorme capacidade de resiliência, inimaginável para quem se detém só nas aparências. Havia perdido um filho em um acidente de moto anos atrás. Uma perda desta natureza abate qualquer pessoa. Em se tratando de uma mãe, não existe, certamente, dor maior que esta. Difícil aceitação, recuperação e superação Quem permanece vivo, muitas vezes parece moribundo, tentando equilibrar-se entre a dor, a vontade de resistir ou deixar-se abater, procurando sublimar a dor para poder sobreviver. Mas não era só isto não. Só? Não é possível, pelo menos para mim, referir-se a algo tão intenso de maneira tão desproporcional ao seu impacto emocional. Tinha mais e isto ela contou para meu marido, quando ele veio trocar de lugar comigo: Havia perdido outro filho entre o Natal e o Ano Novo. Fiquei horrorizada ao saber do fato. Dissera ela que a morte é inevitável. Cada um tem sua hora e que nada podemos fazer.
Ao saber disso não pude deixar de lembrar o livro que lia, sobre Inteligência Multifocal de Augusto Cury que diz que só é grande quem consegue desvendar os caminhos internos, o seu eu e desenvolver o gosto e o encanto pela vida, apesar das dores mais profundas.
Vi naquela pequena grande mulher, um pouco do Vendedor de Sonhos do mesmo autor, que oferece vírgulas para cada um continuar sua história, enriquecer sua existência e encantar a todos.
Os pontos são definitivos, egoístas, encerram-se em si mesmo, não partilham histórias, tempo, experiências e encantamento.
Eles me pareceram exímios em colocar vírgulas nas suas vidas, estabelecer pontes por onde passam cortesia, amabilidade, generosidade (ao ver-me sem uma bebida, apesar do calor, ao chegarem, ofereceram para dividir a sua comigo), sabedoria e resiliência que é a capacidade de se recompor a cada pressão sofrida.
Suas palavras para mim, antes de partir foram:- É isto que gosto, que acredito importante: conhecer pessoas, conversar, trocar idéias, experiências. O resto, não levamos conosco.
Isabel Vargas
 

 
Livro de Visitas

SEBO LITERÁRIO PÁGINA 6/PORTAL CEN


SEBO LITERÁRIO
 

Isabel Cristina Silva Vargas


 
 
 
 
CONTOS
Pág. 6 de 7 Pág.
 
 
Olha o trem...

Mais um dia estava começando. Uma jornada de trabalho findando. Estava cansado. A noite fora longa.
Maio é um mês que o frio e a umidade da região já começam a formar denso nevoeiro. Não gosto de nevoeiro. Encobre tudo ao redor. O céu, as estrelas, a lua e até os pensamentos.
O cérebro parece que esvazia, o barulho da máquina vai tomando conta e nos hipnotizando. Aí complica. Não dá para dormir.
Como deixar 40 vagões carregadinhos de cimento, madeira, cerâmica, mais os tanques de combustível ser guiado por um quase moribundo? Era assim que me sentia quando o sono chegava e não podia deixar que ele se instalasse.
Sempre fui um bom maquinista. Atento, pulso firme, responsável, cordial com os colegas na companhia. Afinal, era um bom emprego. Federal, com regalias, boa aposentadoria. E ela já se aproximava. Contava os meses que faltavam para chegar e ser a companheira de lazer, nas pescarias, nas viagens sem preocupações para o resto da vida.
Estes pensamentos até me deixava mais esperto, apesar da sonolência que permanecia.
Já estava próximo da penúltima estação. Mais um cruzamento e já estaria lá.
No tempo dos passageiros ali pegava muitos estudantes que iam estudar na cidade. Levantavam muito cedo os coitadinhos. Tinha até criança de seus 13 anos que iam até a estação em Pelotas e depois caminhavam até o colégio em diferentes pontos da cidade.
Atualmente, o que ocorria, de vez em quando, embora fosse proibido, era dar uma carona para alguém conhecido que se empoleirava junto na cabine. Hoje, para tirar o sono, bem podia ter sido um desses dias.
O trem estava se aproximando da casa de pedra junto aos trilhos, bem no cruzamento. Ali estava ela.
O apito! Devia ter apitado antes. Não podia vacilar. Está certo, era cedo. Não havia movimento no cruzamento esta hora, mas o sinal é obrigatório.
As árvores nas proximidades dos trilhos atrapalham a visão dos que passam naquele ponto.
Gostava de cumprir à risca as regras de segurança. Devia apitar bem antes para sinalizar que se aproximava. Na próxima jornada tomaria mais cuidado. Iria levar mais café. Um rádio de pilha, embora gostasse do papo interior desenvolvido na cadência do trem. Era como se a máquina colocasse seus pensamentos no rumo certo. Nos trilhos, como se costuma falar.
Desta vez, porém foi diferente. Os pensamentos saíram dos trilhos.
Só foi possível perceber quando arrastava metros à frente, o carro que não ouviu o apito do trem e atravessou os trilhos...
Isabel Vargas
 
Penitência

Clarinda é uma mulher bonita. Deve ter uns quarenta e poucos anos.
Estatura mediana, corpo bem feito, nem gorda ou magra, curvilínea, cabelos bem curtinhos, pele morena do sol, que ela apanha em sua caminhada diária, por todo lugar, a qualquer hora, geralmente na área central da cidade.
A boca sempre pintada. Único indício de sua vaidade. Anda sempre arrumadinha.
Quem a vê circulando pelas ruas da cidade não imagina que tenha alguma aflição a lhe atormentar a alma. Sua face é tranquila.. Talvez possam imaginá-la uma aspirante a atleta em fase de treinamento intenso, pois anda sempre pelo meio da rua. Também pode ser que precise se exercitar bastante por questões de saúde. Na calçada ninguém a vê nunca.
Seu vai-vem diário tem algumas paradas com hora e local certo. Nas igrejas, centrais e em horários de missa.
Chega um pouco mais cedo. Ali ela começa os preparativos.Não são muitos, mas significativos. Mostram respeito na indumentária, devoção na face.
Se está de bermudas, veste uma saia discreta ou uma calça longa. Ali mesmo, na frente do templo..
Antes do início da missa ela coloca um véu branco que lhe cobre a cabeça, desce pelos ombros e cai até o joelho. Segura o véu com as mãos que juntas próximo ao peito completam o visual da Maria que ela carrega dentro de si e expande no olhar em cada reza, canto ou ato penitencial. No ofertório a oferenda é o sofrimento diário para ver se tira de cima dos ombros um pouco da dor que leva consigo desde que sua linda menina de cabelos negros, cheios de cachos que lhe caíam nas costas foi atropelada por um motorista bêbado que subiu na calçada. É ela que Clarinda coloca nos braços da Virgem toda vez que se ajoelha lá na frente do altar e estende os braços fervorosamente.
Isabel Vargas 
 

Percepção

Fui passar o final de semana fora. O mais interessante de tudo: sozinha. Precisava respirar. Sentia-me sufocada com tanta exigência por parte dos que me cercam. Nunca tinha feito isto. Estava feliz e temerosa. Como me sairia? Seria uma pequena prova do que é viver só. Queria sentir o gostinho da liberdade. Ou da solidão.
Não seria mais do que um final de semana.
Almocei no restaurante que me pareceu satisfatório. Bonito, boa clientela, as pessoas falando discretamente. Não gosto de pessoas falando alto nem gesticulando em excesso.
Procurei uma mesa de canto, com boa visibilidade para o restaurante e para a rua, que eu podia ver através da grande janela.
O almoço se desenrolava tranquilamente. Depois iria caminhar para rever a cidade que me encanta. Lojas, cinemas, galerias, teatro estavam incluídos em meu roteiro de final de semana. A ordem não importava. Queria aproveitar tudo.
Meu desejo secreto: redescobrir meus gostos, recuperar recordações de outrora, reencontrar a jovem de 20 anos atrás. Quem sabe resgatar sonhos que se perderam.
Algo inusitado aconteceu.
Na mesa à minha direita percebi alguém que parecia familiar. Não lembrava quem era, se personagem de um livro ou de um filme. Talvez ambos.Era bonita, com ar requintado, gestos comedidos e sorriso controlado. O olhar era distante, como de quem sonha.
O homem ao lado, cortês, amável, solícito, não deixava espaço para ela respirar, viver, desenvolver-se. Dava-me a idéia de um cão a lamber seu dono. Era como se adivinhasse o que ela iria fazer e se antecipava. Atitude castradora.
Soterrada em meio a tanta gentileza ela parecia sentir-se livre nos pensamentos.
O garçom dirigiu-se a ele como Dr. Carlos. Ele tratava a esposa pelo nome: Emma. Descobri quem eram. Não conseguia acreditar naquela materialização. Eu devia estar doente.
Parecia uma cena real.
Tive vontade de me dirigir a eles. Perguntar a ela inúmeras coisas. Se me respondesse talvez suas respostas me auxiliassem, mas também poderia desaparecer.
Isabel Vargas 
Percepções

Bia era uma criança linda. Cabelos dourados que os dias cinzentos não tiravam o brilho. Nos olhos via-se o céu, mesmo que em meio às mais barulhentas trovoadas. Ela era o próprio trovão. Sempre alegre, inquieta e inventando histórias. Não aceitava palavra dada, principalmente se fosse um não. Autoridade para ela era coisa para contestar. Nada a assustava.
A imaginação excessiva equilibrava a falta de brinquedos, de bens materiais.
Por ser imaginação não tinha limites. Nem para pensar coisas boas e outras não tão boas. As travessuras eram o que dava alegria a sua vida. Um pouco mais tarde as fugas da aula, Depois fumar escondido. O escondido dava mais encanto e sabor.
Mesmo as coisas mais banais necessitavam ter um acessório diferente.
Deixavam de ser banais para terem aspecto de aventura.
Só que ela criava tanto que essas invenções a faziam sofrer, pois não sabia o limite entre ficção e realidade.
Mas adianta dizer para alguém que as coisas não são exatamente como ela imagina, como criou ou como sentiu?
Essas percepções marcam a alma e dificilmente alguém de fora conseguirá transformar essas recordações, senão quem as criou.
Há ocasiões que marcam também o físico. E aí é mais difícil alterar.
Quando pequena teve varíola. Doença séria. Perigosa. Precisava ser comunicada à autoridade sanitária da cidade. Resultado: Isolamento. Distância da família. Não importava se criança ou adulto. Era questão de saúde pública.
O médico da família- naquela época tinha isso, mesmo que não houvesse dinheiro para pagar na hora- ficou penalizado com a situação da criança e da família por quem nutria afeição. Então ordenou: - Que ninguém saiba disso. Isolamento em casa. Só uma pessoa para atendê-la. Afastamento total de outras crianças. Outro conselho: - Escondam os espelhos. Geralmente, o aspecto ficava muito feio. A criança poderia se assustar com a própria aparência. Outro detalhe importante. Não poderiam deixar que ela coçasse as bolhas ou arrancasse as cascas. Causariam lesões. Que caíssem ao natural.
Assim foi feito. Todos entenderam. Menos ela. Decorridos mais de quarenta anos, surpreende a todos, em uma conversa, ao dizer que fora abandonada por todos na infância, na época da enfermidade e que um requinte de crueldade da família fora deixar espelhos guardados na gaveta do quarto. Quando ela os achou, não conseguia se reconhecer naquele espelho, pela deformação (temporária), mas que para ela durou uma vida inteira.
As explicações gerais não a convenceram. Quando se olha no espelho, as marcas estão lá para reforçar que tudo que sentira era muito real.
Isabel Vargas 
 
Relação fatal

Floriano considerava-se uma pessoa afortunada. Conseguira muitas bênçãos na vida. Assim ele se referia às realizações pessoais-afetivas ou profissionais. Nascera em família humilde com muitos filhos e firmes orientações sobre dever, honra, dignidade e respeito. Foi sobre estes pilares que alicerçou sua vida. Casou, teve filhos, educou-os com os mesmos preceitos que lhe foram passados pelos pais.
Era construtor. Orgulhava-se de sua profissão. Com as sólidas bases que edificou sua trajetória de vida também erguia as casas que para ele significam mais do que uma simples moradia, mas a materialização dos sonhos de muitas pessoas, em cujos espaços eram fortificados laços de amor, respeito, solidariedade. Lares onde desejava que as pessoas fossem felizes.
Ele mesmo erguera o seu onde foi possível ver os filhos crescerem com saúde, tornarem-se adultos. Orgulhava-se dos filhos e das profissões escolhidas. As duas filhas professoras, o filho, advogado.
Aos sessenta anos ficara viúvo. Um câncer roubou-lhe a esposa deixando só, após um período de intenso sofrimento. Acreditava que sua vida havia chegado ao fim, que seu ciclo estava completo e nenhuma novidade aconteceria. Com essa convicção seguia sua rotina diária, e como era muito religioso, sempre agradecendo pela vida e por tudo que havia conquistado e até pelos maus momentos, ciente de que a vida apresenta diversas facetas.
Próximo de completar 70 anos conheceu uma pessoa. Uma mulher de 40 anos, solteira. Não lhe havia passado na cabeça a idéia de tornar a casar-se. Com o incentivo de familiares foi procurá-la e em menos de um ano estavam casados No civil e no religioso. Senta-se revigorado. Passou a interessar-se pela vida. Viajavam, tiravam férias no Uruguai a cada final de ano. Visitavam sua filha que morava em outra cidade, passavam temporadas fora de casa.
Passara a ter medo da rotina.
Sentia-se feliz. Todos haviam aprovado sua decisão. Tinham uma relação familiar sólida.
Para ela, que já se julgava condenada à solidão para o resto de sua vida, encontrá-lo tinha sido uma grande sorte. Podia desfrutar de prazeres que sua condição financeira na permitia, pois trabalhava como balconista para sustentar a si e a mãe velha e doente.
Viveram juntos por dez anos. Ela ficou viúva aos cinqüenta, quando o coração octogenário de Floriano não resistiu ao esforço de uma noite de amor.
Ele morreu feliz, ela viveu o resto de sua vida lamentando a falta dele.
Isabel Vargas 

 
Livro de Visitas

SEBO LITERÁRIO PÁGINA 5/PORTAL CEN


SEBO LITERÁRIO
 

Isabel Cristina Silva Vargas


 
 
 
 
CONTOS
Pág. 5 de 7 Pág.
 
Friagem

Ao acordar, estranhou que a garota já não estava na sua cama.
Imaginou que teria ido embora. Talvez tivesse roubado algo. Mas o que? Não tinha coisas de valor.
Talvez, passado o temor da escuridão e o frio da noite, tivesse se animado a procurar alguém conhecido, algum companheiro de desventura ou parceiro de aventuras urbanas. Talvez isso, talvez aquilo... Conjecturas. Não se animava a ir verificar o que se passava, isto é, sair do quarto e ver por onde andava a bichinha. ( A sensação que ela lhe transmitia era esta. Um ser indefeso, sem consciência dos perigos que enfrentava).
Aflição boba. Não significava nada para ele. Tinha sido, apenas, um encontro sem importância na desventura. Um ato recíproco de solidariedade. Cada um aliviando a friagem exterior e interior do outro. E, como aliviara. Há muito não sabia o que era ter alguém por perto. Dividindo o mesmo leito, então, mais tempo ainda. Embora tivesse sido só um gesto para não deixá-la ao relento como um gato de rua.
Será que ela tinha ido embora? Porque sentia um aperto no peito?
Não tinha acontecido nada. Só diminuíram o frio que sentiam.
Nada possuíam para oferecer um ao outro. Ele muito mais velho, calejado. Ela muito novinha. Era como um animalzinho acuado. Errante, solitária, abandonada.
Ele só tinha aquele lugar para se aninhar. Precário, mas era tudo que possuía.
Decidiu parar com as suposições.
Encheu-se de coragem e levantou.
Viu sobre a cadeira o gorro de lã que ela usava para se proteger do frio. Velho e surrado como ele.
Será que a encontraria?
Isabel Vargas
 
Incertezas

Beatriz sonhava quando acordou num sobressalto, com o barulho da porta que se abria.
Sentia-se confusa, perturbada com o sonho que acabara de ter. Sua face demonstrava a preocupação que tinha. Não queria ser precipitada nas decisões, mas também não conseguia raciocinar com clareza.
Quando Antenor entrou no quarto, percebeu nele uma aparência cansada. Depois de um dia inteiro de trabalho, isto era previsível. Seus gestos lentos, quase mecânicos demonstravam que desejava descansar. Ficou mais aliviada. Não teria de conversar nada mais sério naquele momento.
Recostou-se na cama. Fechou os olhos com a intenção de evitar qualquer conversa que gerasse novos atritos. Ele, por sua vez pensava em tomar um banho, relaxar e dormir.
Quem sabe ao acordar, conseguisse pensar melhor, ter uma conversa franca que os conduzisse a um entendimento. Só queria um pouco de paz, mais cordialidade, mais cumplicidade, daquelas que um olhar basta para entender o que vai na alma do outro. Já faz tanto tempo que isto não acontecia... Será que estaria perdendo tempo em desejar resgatar algo que não era mais possível? Seria melhor esperar. Amanhã, a luz do sol poderia ajudar clarear seus pensamentos. Talvez conseguisse colocar melhor seu sentimento sem ser repetitivo, chato, sem pedir nada.
Queria abrir seu coração. Sentia-se como um guerreiro cansado que necessitava de trégua para recompor o corpo e o espírito.
Não tinha mágoa. Nem tristeza. Era um sentimento que não conseguia explicar. Talvez um vazio imenso.
Isabel Vargas
 
 

Lágrimas

A manhã era chuvosa, prenúncio de que o dia seria sem cor, gelado como era sua pele na manhã de inverno.
A ausência de sol deixava o dia igual sua vida: sem brilho.
Não esperava nada diferente naquele dia, até que o barulho da campainha tocada apressadamente, como se alguém tivesse pressa a surpreendeu. Atendeu.
Ao abrir a porta: Surpresa!
Era sua irmã. (Não a via há muito tempo)
Desde a morte de seu pai, encontravam-se esporadicamente. Falavam-se pouco. Viviam distanciadas. Quando se encontravam não tinham muitas coisas boas para lembrar. Só as dificuldades. Preferia esquecer.
Surpreendeu-se com o abraço da irmã.
- O que aconteceu?- Indagou. Pareces muito aflita.
Marta, entre lágrimas respondeu:
- Estou só! Felipe partiu sem conversa, sem explicação. Só uma carta.
Tornou a abraçar Beatriz. Ela permanecia imóvel. Não estendia os braços. Não se movia. Não dizia uma palavra. Parecia longe dali.
Imaginou-se no lugar de Marta. Se acontecesse com ela?
Não sabia responder.
Lembrou-se de Antenor, dos abraços carinhosos de outrora, dos planos, dos risos alegres, dos filhos, dos momentos felizes, dos olhares cúmplices.
Não sabia definir o que se passava.
Lágrimas quentes, silenciosas escorreram.
Estendeu os braços. Trouxe Marta para junto de seu peito.
Há muito não chorava.
Era uma sensação estranha, mas parecia aliviada.
Sentiu que desejava um abraço, um aconchego, calor humano.
Sua pele estava quente. Seu coração parecia derreter.
Isabel Vargas
Memórias

Veridiana é uma mulher de baixa estatura, franzina, comedida nos movimentos e nas palavras. Não é de grandes prosas, roda de amigas, riso solto. Ao contrário. Tudo nela é escasso, comedido, controlado.
É de um tempo em que mulher não se desnuda, não ri alto, não sai sozinha com homem, não desobedece pai, mãe, marido. Talvez por isso não casasse. Não queria só mudar de dono.
Reúne-se com as companheiras de habitação nas refeições, no horário de assistir televisão. Assunto só o habitual. Trivialidades sobre a refeição, o tempo ou o que assistem na televisão.
Não possuem afinidade, não revelam o passado-seus tesouros-, não desvendam intimidades, gostos, preferências. Não se deixam conhecer. Talvez desejem preservar em seu íntimo as lembranças de tempos memoráveis, Outras sequer se reconhecem.
Se fosse revelar suas memórias ,talvez não a compreendessem,poderiam achar que fantasiava ou julgá-la pedante, esnobe ou mentirosa. Também para que serviria contar o passado? Ali naquele local estavam em igualdade de condições. Sem família, sem afetos.
Vivia em seu minúsculo quartinho, com as paredes pintadas de branco, cama muito simples, fino colchão de espuma, um pequeno roupeiro que nem combinava com a cama, um criado-mudo, uma cadeira e uma pequena televisão que ganhara de um sobrinho neto que vinha visitá-la de ano em ano.
Sair só quando algumas pessoas de entidades assistenciais vinham de ônibus buscá-las para um evento especial, passeios geralmente proporcionados em épocas festivas, Páscoa, Dia das Mães, Natal.
Gostava de relembrar o passado. Fora feliz. Essas recordações lhe abasteciam nesta época de escassez, e não a deixavam sucumbir nesta vidinha pequena e sem graça.
Vivia no passado, quando os negócios do pai-um curtume-ainda era próspero e lhes proporcionava muito conforto e riqueza. Seu pai era rico, porém sem muita cultura, mas era bom pai, bom esposo. Viviam felizes. A infância, adolescência e juventude foram desfrutadas em meio ao conforto e segurança.
A mãe, de família tradicional, era uma pessoa requintada, elegante, culta e de notório poder que lhe era conferido pelo nome de família.
Viviam na zona do porto em um confortável palacete. Recebiam pessoas influentes da cidade, do estado, de outras regiões, e até políticos. Nessas reuniões seu pai costumava conquistar comerciantes indecisos que não resistiam ao bem receber da família.
No verão iam para a chácara que possuíam em Teodósio, onde se deliciava no imenso pomar, na sombra das frondosas figueiras, e no açude. Adorava ver o trem passar cheios de passageiros. Naquela época tudo era Pelotas. Emancipação sequer ouvira-se falar. Isso é coisa da política mais recente.
Sua mãe a ensinou tocar piano, a ler em nosso idioma e em Francês, a recitar versos, a cantar para alegria dos familiares e visitantes nos pequenos saraus familiares.
Gostava disso. Passavam horas agradáveis reunidos na confortável sala, em reunião íntima, ocasião em que saboreavam as deliciosas guloseimas preparadas pelas mulheres da família- sua mãe, ela, irmã e a avó- sempre auxiliadas pelas serviçais da casa que as acompanhavam desde que sua mãe era novinha.
Ainda sente o aroma dos licores, o sabor das bolachinhas amanteigadas, dos pastéis se Santa Clara, dos fios de ovos, dos bolos de laranja, chocolate, baunilha, dos doces de figo e pessegadas feitas com as frutas que vinham da chácara.
Há uns anos atrás ainda podia sair e passava em frente ao palacete no qual viveu toda sua vida. Ali estão guardados os melhores anos de sua vida.
Hoje, não anda mais só e nem sabe como ele está.
Quando os negócios de seu pai começaram a ruir e os credores a aumentar foram junto com o palacete, além dos bens materiais, o status, a tranqüilidade, a segurança, o conforto e a alegria. Esta sumiu com perda do pai que não resistiu ao golpe financeiro e
da mãe que no ano seguinte morreu de tuberculose.
A última a abandoná-la, não por vontade própria foi Glorinha que fora criada junto com ela e a irmã, hoje também falecida e cujo filho mora em outra cidade.
Moraram juntas na pequena casa para onde se mudaram. Glorinha ficou enferma, com sequelas de um derrame que a acometeu. Não pode ser aceita onde ela está, asilo este que não aceita enfermos, só pessoas que não tenham perdido a autonomia física ou mental.
Hoje, vive das lembranças de um passado feliz, de uma época de grande esplendor que só uma parcela desta encantadora Princesa viveu e que hoje está envolta nas brumas do tempo.
Isabel Vargas
 
 
Momento narcisista

A vida sempre foi uma sucessão de acontecimentos a me atingir profundamente.
O que me aconteceu na infância, a enfermidade, marcou-me não só na memória, como no rosto para que eu não esqueça nunca do momento em que me olhei no espelho e não me encontrei, não me vi, não me reconheci no rosto desfigurado. Não encontrei a face que todos diziam ser angelical -eu também achava - os olhos de um azul intenso não me viam
Depois, bem mais tarde, a morte de meu pai jogou-me na dura realidade da luta pela sobrevivência.
Os amores que tive sem os desejar e os que desejei em vão.
Todos os fatos me atingem e me arrastam como objetos levados na correnteza sem qualquer proteção.
Ás vezes achamos um galho, para nos segurarmos, mas logo ele vai adiante e somos jogados de novo à própria sorte.
O tempo passa, a beleza desaparece, os amores se vão e continuamos como sempre estivemos: só. Até que o ciclo se complete.
Nascemos, vivemos e morremos sozinhos. É um processo individual, não interpessoal. Ninguém vai morrer em meu lugar.
Deveria me sentir feliz. Significa que me basto. O resto é cenário.
Isabel Vargas
 

 
Livro de Visitas

SEBO LITERÁRIO PÁGINA 4 /PORTAL CEN


SEBO LITERÁRIO
 

Isabel Cristina Silva Vargas


 
 
 
 
CONTOS
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Destino

Restaurante, personagem irreal, rua, chuva, relâmpagos, tormenta, medo, táxi, hotel.
Descanso...
Beatriz adormeceu.
Sonhos, lugares conhecidos, verões agradáveis na companhia de amigos.
Formaturas, conquistas.
Viagem à Paris ao lado de Antenor. Alegrias.
Tudo se misturava com brigas diárias, rotina, desejo de fugir.
Não sabia onde se encontrava.
Uma estrada estreita, de barro vermelho surge à sua frente. Encontra-se na zona rural.
Ouve o barulho de água a correr entre as pedras. Mata verde. Ar puro.
Respira profundamente.
Pássaros cantam. Lugar calmo e convidativo.
Salta entre as pedras. Atravessa o arroio. Arrisca-se. Embrenha-se na mata. Caminha até a exaustão.
Surgem caminhos à sua frente.
Olha para trás. Não dá para retornar. Tem que seguir em frente. Que caminho tomar? Fica em dúvida, como
em toda sua vida.
Sente medo. Este sentimento também é conhecido. - Droga! Tudo igual. Realidade e Sonho.
Corre, tropeça. Cai.
ACORDA!
Respiração ofegante, suor, novamente o medo. Abandono.
Levanta-se. Vai à janela. A chuva cessou.
O sol retorna tímido.
Sua esperança também
Isabel Vargas
 
Destinos

Kika sempre foi uma pessoa curiosa. Quem a vê não imagina a sua maneira de pensar, nem suas convicções das quais não se afasta por nada.
A aparência é avançada. Fora dos padrões normais. Nos conceitos de família, vida pessoal é mais regrada. Apesar de não ter religião respeita a crença dos pais e não deseja criar maiores conflitos além das desavenças habituais pela sua aparência física, para eles muito ousada. Decidiu, então, morar sozinha. Sua situação financeira é estável. A banda já lhe rendeu algum dinheiro que guardou para realizar o sonho de comprar um apartamento. Assim poderá receber os amigos sem problemas. Seu pai não os tolera. Não pela aparência um tanto exótica, mas pelo fato de , eventualmente, utilizarem maconha. Fazem isto em qualquer lugar. Kika é contrária a este hábito. Não faz uso disto. Nunca. Não conseguiu dissuadi-los de utilizarem.
Foi uma terça-feira que foi ao encontro do corretor com quem tratou por telefone ao ligar para uma imobiliária para se informar de um imóvel que vira em anúncio no jornal. Edmilson era seu nome. Combinaram encontrar-se na imobiliária e de lá seguirem juntos para ver o apartamento.
Lá chegando foi direto na recepcionista a quem informou que desejava encontrar o corretor Edmilson.
Ele, que vinha entrando na recepção, mal olhou no rosto de Kika. A aparência "gótica" da moça não o levou a imaginar que aquela era a cliente. A voz suave não condizia com a aparência.
A recepcionista informou que a moça desejava falar-lhe.
Edmilson, sem olhar para ela informou que não poderia atender ninguém, pois estava ocupado. Sem dar atenção à cliente entrou na sua sala.
Kika já estava acostumada a ser alvo de discriminação em virtude da aparência nada convencional. Pediu licença e foi entrando escritório adentro sem bater. Soltou de um fôlego só uma enxurrada de palavras.
- Olha aqui, seu tratante. Não me desloquei de ônibus, sem café para cumprir o compromisso agendado e chegar aqui na hora marcada, para encontrar um corretor irresponsável, bobalhão que nem na minha cara olhou e que por certo deve achar que não tenho condição de comprar nenhum apartamento. Agora quem não quer sou eu. Vou procurar outro corretor. Deve haver profissional mais educado e competente.
Virou-se e saiu com o mesmo ímpeto que entrou na sala, sem dar tempo para que ele esboçasse qualquer reação.
...
Passaram-se dois dias.
Edmilson achou que deveria ligar para Kika e desfazer o mal entendido. Não tivera a intenção de agir de forma preconceituosa. Afinal, ele próprio não era nenhum "Gianechinni da Globo" e sabia que era não se enquadrar no estereótipo de beleza. O mercado de trabalho se abre para jovens, belos, altos, sarados, bem falantes e que vendem uma bela imagem. Aos demais resta um corpo a corpo diário para comprovar competência, embora esta nada tenha a ver com aparência física.
Mesmo sem intenção pisou na bola, como se diz na linguagem de futebol.
A moça não parecia muito convencida, mas aceitou as desculpas e marcaram uma nova data para examinarem o apartamento. Desta vez se encontrariam na porta do edifício. Ele já estaria à sua espera.
Assim foi feito.
Fazia questão de olhá-la bem nos olhos ao lhe falar assim tentaria desfazer a primeira impressão.
Saudou-a com um sorriso estampado no rosto.
Ainda desconfiada, Kika respondeu ao cumprimento com um meio sorriso.
Subiram.
Ele falava o tempo todo sobre as vantagens da localização do apartamento, do tipo de construção, suas características, o tipo de morador dali, as conveniências do entorno.
Até parecia bem simpático, alegre, olho brilhante. Isto chamou sua atenção. Gostou daquele brilho no olhar. Prendia a atenção das pessoas. Era como um ímã. Não conseguimos nos desgrudar. É típico de quem tem luz interior e de quem faz o que gosta.
O brilho se expande pelo rosto e nos atinge. Atrai.
As mãos, que não paravam de gesticular mostrando a grande janela com uma linda vista para um pequeno parque, eram bem cuidadas, de unhas bem limpas e, apesar dele ter uns quilinhos a mais, eram longas e bonitas. Deviam ser macias também.
Quando percebeu, ao invés de olhar cada cômodo, olhava para cada parte do rapaz que lhe chamava a atenção: os olhos e as mãos.
Ela a tratava com gentileza e atenção, bem diferente da outra vez. Estava gostando. Tanto que ao saírem do apartamento , quando ele perguntou se poderiam se encontrar novamente para conversarem melhor ela logo assentiu. Desta vez com simpatia, um aperto de mão, que ele retribuiu com um longo sorriso, um olhar mais brilhante ainda e um longo e suave beijo no rosto.
Ela gostou.
Fechou os olhos. Será que estava apaixonada ?
Não podia acreditar. 
Isabel Vargas
 
 

Dúvida

Linda conhecera Olavo aos treze anos. Ele tinha vinte e um. Homem alto, forte, origem européia. Pessoa de gênio forte, disciplinado, exigente.
Ela era a mais velha de quatro irmãs, talvez por isso aparentasse mais idade, pela responsabilidade de ajudar a mãe a cuidar das menores.
Naquela época, o namoro era um compromisso sério e tinha que ter o aval dos pais. Existiam regras rígidas para namorar. Só em finais de semana, hora marcada, família na volta. Deixar a menina sozinha com o pretendente era fora de cogitação.
Como ele já tinha emprego, era mais velho, demonstrava responsabilidade, não demorou muito para casarem. Cumpriram os rituais de praxe, isto é, pedido de casamento, noivado. Ela com 16 anos.
Ao homem cabia sempre a última palavra, além, é claro, de ditar todas as normas da casa, como se fosse o comandante de um quartel.
A despeito da rigidez dele, da falta de demonstração pública de afeto, procurava proporcionar conforto e diversão para a família.
Na realidade, para ser imparcial, ela, a esposa demonstrava temor frente a ele e por isso zelava para o fiel cumprimento dos desejos dele. Tinha medo dele se aborrecer. Quando isso acontecia ele se tornava grosseiro na frente de qualquer pessoa. Sequer pensava em questionar as ordens. Tornou-se um fiel capataz do lar, ou ajudante de ordens, se um quartel fosse. Hora de levantar, de almoçar, estudar, tomar banho, deitar eram cumpridas à risca para aborrecimento dos filhos. Barulho em hora de ele dormir a sesta era sacrilégio. Isso se ela fosse católica. Como não era, tornou-se regra a ser cumprida sem questionamento. Regras que serviam para reafirmar a autoridade de alguém que tinha um papel árduo para desempenhar, considerando a educação que recebera dos pais, vindos de uma região da Europa, castigados pelas agruras passadas.
O amor não aparecia. Ficava sufocado pela autoridade.
Por muito tempo a vida familiar seguiu assim. Ela zelando pelo cumprimento do ordenamento ditado por ele, referentes a casa, os filhos, ao cachorro e aos desejos dele próprio. E do que ela denominava deveres conjugais.
Como ela fora alfabetizada pela mãe, não estudara em escola regular, trabalhar fora não era cogitado por nenhum dos dois, mas em um período de maiores dificuldades ela começou a trabalhar em casa, cortando cabelo de mulheres. Ainda economizava cortando o cabelo do marido e dos filhos. Aprendera o ofício com uma amiga que morava próximo.
A vida seguia em um ritmo cadenciado, sem imprevistos, desvios ou contra-ordens até que ele de dispôs, gentilmente, abnegadamente a ensinar a prima de Linda a dirigir. Uma jovem bonita, solteira, alegre, bem educada, professora e que queria dirigir para ter seu próprio carro.
No início ela até saía junto. Mas com o tempo as aulas passaram a ser mais freqüentes. E ela não podia deixar as clientes, a lida da casa, o cuidado com os meninos que já estavam ficando mocinhos.
Então, os dois, Olavo e a prima Vanda passaram a sair sozinhos para as aulas.
Intermináveis aulas. Até que o vulcão que vivia apagado, ou contido pelas regras emanadas do ditador e que ela com o tempo, sem se dar conta, assumira como suas também, em nome da convivência aparentemente harmoniosa, explodiu. E, de uma forma tão intensa que não houve palavra dele que a convencesse de sua inocência e, sobretudo, da inocência da prima a quem considerava uma irmã.
Aí foi a vez de ele calar-se.
As ordens partiam dela. A prima, ela nunca mais visitou, nem permitiu a entrada dela na sua casa. Comunicou às irmãs que teriam que escolher: ou ela, ou a prima. Não haveria lugar para as duas na convivência familiar.
Linda e Vanda jamais se falaram.
Em casa, o assunto morreu ali.
Isabel Vargas
Elos

Juvenal tem muitas lembranças da infância. Família grande, pai, mãe e quatro irmãos.
A mãe não trabalhava fora. Era analfabeta, cuidava dos filhos e em épocas que a situação apertava ela trabalhava fazendo faxinas em casa de família. De trabalho regular, só o pai que era vigia de uma grande empresa. Trabalhava 12 horas, usava um bastão, revólver e um relógio que ele utilizava para marcar as voltas que dava em todo quarteirão da empresa. No verão o trabalho não era de todo ruim, principalmente quando fazia o turno do dia. Havia movimento. Podia prosear com um ou outro e o tempo passava mais rápido.
O problema era à noite. Aí o trabalho se tornava muito solitário, além de perigoso. Tinha que fazer a ronda de rua e dentro das salas da empresa. Nestas ocasiões carregava um chaveiro com dezenas de chaves.
Tinha que entrar, revisar, fechar portas. Naquela época não havia alarmes eletrônicos, cercas elétricas.
Cada vez que o pai, Romeu, chegava a casa sentiam um alívio. Isso na ronda noturna, que era sempre alternada. No inverno era um trabalho difícil, não dava nem para tentar ficar mais tempo dentro do local, porque tinha que marcar as voltas realizadas. Depois o chefe conferia se ele tinha feito tudo nos conformes.
Era muito cuidadoso com tudo, inclusive o uniforme. Acho que ele se sentia como um policial, alguém com algum poder, pois zelava pelo patrimônio da empresa, carregava arma, tinha chaves e cadeados de lugares que precisavam ser muito bem cuidados, entre eles o cofre onde depositavam todo o dinheiro do dia. Não havia carro forte como agora, assim não era possível depositar o dinheiro ao final do expediente. Isso era feito pelo contador na manhã seguinte. O pior era em final de semana que acumulava o dinheiro de sexta e sábado pela manhã.
Nestas ocasiões ele chegava a sentir calafrios na barriga só de pensar o dinheirão que ficava lá guardado. Com todo aquele dinheiro lá não era de duvidar que alguém tentasse assaltar.
Juvenal recorda as conversas que mantinha com o pai quando ele contava que apesar de não ter estudo não se sentia rebaixado perante as outras pessoas, pois era uma pessoa de confiança, gozava de uma boa reputação na empresa, e zelava pelo patrimônio alheio.
Só que Romeu não sabia que uma turma das imediações cuidava toda a sua rotina. Preparavam um golpe, que ao ser aplicado funcionou como planejaram. Assaltaram o local, levaram uma razoável quantia de dinheiro e por ser gente habilidosa no trato da safadeza, apesar de pegos, envolveram o pobre que para sua defesa só tinha a sua palavra e o histórico de vida, que não serve de muito quando a malandragem é grande. Os ladrões afirmavam que eles agiram de acordo com o vigia, que facilitou a entrada deles .
Apelos alegando a vida pregressa, as condições de pobreza, a falta de condições de pagar advogado não valeram de nada. Romeu ficou preso para investigação por algum tempo. Os demais saíram rápido, pois não precisavam de assistência gratuita.
Romeu perdeu o emprego e a sanidade. Vivia fechado no quarto (depois de sair da triagem onde ficou preso algum tempo). Examinava cadeados que ele pedia para Juvenal trazer, pensando, arquitetando saídas para tentar descobrir como eles tinham roubado, sem violarem portas, cadeados, cercas e não achava solução.
Acabou sendo internado pela família em um hospital psiquiátrico, de onde fugiu e passou a viver nas ruas. Não conseguiram mais encontrá-lo. A mãe –Filomena - teve de trabalhar de doméstica deixando os filhos na creche.
Juvenal que era o mais velho, não pode deixar de lembrar do pai, todas as vezes que fecha os cadeados das portas do sanatório, onde hoje trabalha.
Os cadeados que se abriram para seu pai, o mantêm prisioneiro das lembranças.
Isabel Vargas
 
 
Encantamento

Leninha sempre fora muito medrosa. Não gostava de escuro, de histórias de assombração, de bruxas, nada que de uma forma lhe transmitisse insegurança.
Talvez o medo a instigasse a ponto de ficar a pensar constantemente no assunto e, segundo dizem, atrair para si o que, na realidade, não queria.
Certa noite, antes de dormir, deu uma volta no pequeno jardim de sua casa. Nele havia um pinheiro plantado por seu pai, logo que compraram a casa. Ele quando comprado, segundo seu pai dizia devia ter um metro de comprimento; Na realidade, embora o tamanho, ele era novo como ela. Uns dez anos. Só não cresciam na mesma proporção. Sempre que o tempo estava muito úmido, na volta do pinheiro cresciam muitos cogumelos. A região, por natureza é úmida. Azálea, amor perfeito, brincos de princesa, hibisco e hera eram as outras espécies de plantas que existiam ali. Seu pai quando via os cogumelos desejava arrancá-los. Não sabia se tinham algum veneno ou não, o que poderia prejudicar os cães, pequenos e delicados.
Ela sempre dava um jeito de impedir que ele fizesse isso. Achava os cogumelos tão bonitinhos. Pareciam de histórias infantis. Quando sentava embaixo do pinheiro conversava com eles. Perguntava-lhes se eles eram moradias de seres pequeninos, elfos ou duendes não sabia precisar.
Nesta noite fez isso mais uma vez. Tinha muita curiosidade. Lia muito sobre seres encantados, mas nunca vira algum.
Andou pelo jardim, olhou as estrelas, conversou com cada pequena planta e só então foi deitar-se.
Queria deixar a janela aberta, mas a aragem fria da noite não lhe permitiu. Achava que a janela aberta facilitaria a entrada de algum ser. Na verdade, seu pequeno jardim era sua floresta encantada. Para seus pais, pessoas naturalmente distante das coisas mágicas, pois tinham que se preocupar com coisas mais sérias, inclusive zelar pela segurança diziam que o máximo que aconteceria seria um ladrão entrar pela janela aberta.
Conformou-se e foi dormir. Muito aborrecida.
Apagou a luz, puxou as cobertas da cama. Só um facho de luz entrava pelas venezianas da janela do quarto.
Adormeceu.
Um tempo depois sentiu como se a chamassem. Ficou em um misto de sonho e realidade. Virou-se para o outro lado. Seus olhos bateram na ponta da cômoda, exatamente onde o raio de luz batia. Assustou-se. Sentado displicentemente na beira do móvel, um ser inimaginável. Ou melhor, imaginado sim, mas só no mundo da fantasia. E ali era real. Seu quarto, suas coisas e ele ali. Então, era real.
Ele sorria para ela. Sorriso brincalhão. Parecia que já a conhecia e a seus pensamentos também.
Não sabia definir se era um duende, um elfo. Nem sabia muito bem a diferença entre eles. Só sabia que eram protetores da natureza.
Tinha um sapato igual àqueles que via nas histórias, bem comprido com a ponta virada para cima. Era marrom. A calça cinza e o casaco verde. Na cabeça um gorro com a ponta caída. Quando ele se mexia, parecia que mudava de cor. Parecia um arco-íris em sua cabeça. Em outros momentos parece que se transformava em uma estrela.
O que lhe chamou a atenção é que ele sorria muito. Sorria e falava que sabia quem ela era e de como gostava das coisas da natureza. Pediu-lhe que continuasse assim.
Seus cuidados tinham muito valor porque só com o cuidado de todos haveria vida no futuro. Que cabia às pessoas como ela, de coração puro e comprometidas com o bem, espalhar esse sentimento de cuidado e proteção para um número sempre crescente de pessoas.
Leninha comprometeu-se com ele. Mas desejava que ele aparecesse mais vezes.
Ele despediu-se e ela seguiu dormindo.
Ao amanhecer, abriu os olhos, sem se recordar de nada.
Quando se levantou viu um pequeno buquê de flores do campo sobre a cômoda.
Lembrou-se do ocorrido.
Não fora um sonho.
Isabel Vargas
 

 
Livro de Visitas